Ida de Neymar para o PSG esconde algo muito maior que o futebol

Transação milionária do atacante brasileiro é um marco no futebol, mas também uma declaração política do dono do time, o Catar.

Depois de quatro anos no Barcelona, Neymar foi oficialmente apresentado pelo Paris Saint-Germain na última sexta-feira.

Durante a primeira coletiva do atacante, o presidente do clube, Nasser Al-Khelaifi, fez questão de frisar que o jogador não tinha sido caro, pois o PSG ainda ganharia o dobro com ele.

A transação custou ‎€ 222 milhões (R$ 812 milhões) e fez de Neymar o jogador mais caro na história do futebol.

E, embora a imprensa francesa comemore a chegada do brasileiro e acredite que ele possa revolucionar a economia do futebol por lá, há outro país na jogada que deve se beneficiar com a saída de Neymar do Barcelona.

Para conseguir pagar a milionária rescisão com o Barcelona, o PSG teve apoio do fundo de investimentos Qatar Sports, do qual Al-Khelaifi também é CEO, e que é subsidiado pelo Qatar Investment Authority, dona de 70% das ações do clube francês desde 2011.

De acordo com Simon Chadwick, professor de Negócios Esportivos da Universidade de Salford, no Reino Unido, entrevistado pela Bloomberg, a negociação de Neymar “é uma ofensiva charmosa de soft power”.

A expressão em inglês refere-se à sutil estratégia de influenciar internacionalmente o que vai se falar sobre o Catar.

Desde junho, o Catar sofre com a tensão com Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes e Egito, que acusam o país de apoiar grupos extremistas e financiar o terrorismo na região.

Apesar de negar as acusações, o Catar teria apoiado a Irmandade Muçulmana no Egito, o Hamas na Faixa de Gaza e grupos de rebeldes sunitas que lutam contra o governo sírio de Bashar Al-Assad.

Os vizinhos chegaram a fazer exigências para que o Catar não sofresse sanções, mas, como o país não concordou com as demandas, o bloqueio econômico segue.

O Catar já pediu ajuda à ONU para resolver a crise no Golfo e entrou com queixa na OMC contra a ação das quatro nações, mas o diálogo entre os países continua praticamente inexistente.

A transferência de Neymar ao PSG, portanto, seria uma maneira do Catar estar no centro do debate mundial sob outra perspectiva.

Ao contrário das alegações de subsidiar o terrorismo, o país estaria mesmo interessado em investir no esporte, em temas pacíficos.

Além de ser uma estratégia para mostrar que, apesar do impasse com os vizinhos, ele não foi afetado pela crise diplomática.

De onde vem o dinheiro

O Catar tem a terceira maior reserva de gás natural e uma das 20 maiores reservas de petróleo do mundo.

Com reservas provadas 23,9 bilhões de barris e produção de 618 mil barris de petróleo por dia, boa parte de sua receita vem da extração do combustível.

Recentemente, o fundo Qatar Investment Authority comprou uma participação de 61% na rede de gasodutos britânica National Grid e, no fim do ano passado, associou-se a Glencore para comprar 19,5% da russa Rosneft, além de adquirir 4,6% da petroleira Royal Dutch Shell.

Mas a Qatar Investment Authority também é um dos braços do governo para diversificar seus investimentos e diminuir a dependência dos preços de gás e petróleo no mercado. A estratégia tornou-se ainda mais importante após o país concordar em seguir o limite de produção estipulado – 32,50 milhões a 33 milhões de barris por dia – pela Opep.

Vida no Catar

Após Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes e Egito romperem relações com o Catar, os habitantes do país com maior PIB per capita do mundo correram aos supermercados para comprar tudo que lhes garantisse sobreviver a uma possível escassez de produtos.

Mas as prateleiras foram reabastecidas, em seguida, e o governo está tentando garantir que os padrões de vida continuem iguais, segundo a Bloomberg.

 

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